Monte Rinjani: A subida ao vulcão de Lombok

A ideia veio-me à cabeça quando googlei pela primeira vez Lombok. Ainda nem tinha marcado o voo para Bali, mas já tinha embicado que queria subir o Monte Rinjani. Embicado é a palavra correta porque quanto mais lia sobre o assunto, mais tinha a certeza de que não tinha condição física para o fazer. Mas, já se sabe: deus quer, o homem sonha e a obra nasce.

Retiremos deus da equação e comecemos pelo princípio. O Monte Rinjani é o segundo vulcão mais alto da Indonésia, atingindo o seu cume a 3.700 metros de altitude. É a subida mais exigente da Indonésia, não apenas pela altitude, mas também pelo declive acentuado e pelo terreno arenoso: a última etapa é praticamente uma interminável duna de areia vulcânica.

Pela sua dificuldade e por se encontrar na menos afamada ilha de Lombok, o Monte Rinjani não é o vulcão indonésio mais procurado pelos turistas, mas, a pouco e pouco, tem atraído cada vez mais visitantes destemidos (ou, quiçá, ingénuos).

monte rinjani

Subir ao Monte Rinjani: Tudo começou bem

Dois americanos. Dois ingleses. Uma polaca. Estes seriam os meus colegas de batalha durante três dias. Encontramo-nos no sopé da montanha, trocamos meia dúzia de palavras e percebo logo que sou a única pessoa que nunca tinha feito nada disto. A medo, pergunto a um dos nossos guias se acha que eu vou conseguir chegar ao cume. “Of course”. Vira-se para o outro guia e ri-se.

Apesar do meu pressentimento de que nada disto podia acabar muito bem, os primeiros quilómetros a partir da aldeia de Sembalun foram bastante fáceis e palmilhados a ritmo militar. A inclinação ainda não era muito acentuada, havia sombra e em menos de nada chegámos ao nosso posto para almoço, onde um grupo de indonésios já estava a preparar o nosso almejado farnel.

Neste primeiro troço o clima ainda é tropical e o verde do Monte Rinjani enche-nos a alma. Há pequenos riachos e divertimo-nos a contornar vacas e macacos. O passo é rápido, mas ainda há energia, risos e tempo para tirar algumas fotografias.

monte rinjani lombok

Depois de almoço, o terreno torna-se mais íngreme e árido, e o nosso ritmo vai progressivamente diminuindo. Já vemos o sol a descer no horizonte, o nosso acampamento teima em não aparecer e eu tenho de parar algumas vezes para recuperar o fôlego. O guia anima-me. “Amanhã será muito pior”. Ri-se.

Ao final da tarde e depois de quase treparmos por um rochedo, chegamos ao nosso acampamento. Os nossos carregadores, quais ninjas da floresta, adiantaram-se e já tinham as nossas tendas montadas e o jantar ao lume. Depois de restabelecermos os nossos níveis de energia, ficámos a contemplar o pôr-do-sol e tudo o que teríamos de caminhar no dia seguinte. De um lado do acampamento, lá em baixo, o lago turquesa Segara Anak. Do outro, o trilho estreito e interminável que nos levaria ao cume da montanha.

monte rinjani acampamento

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Se eu tivesse visto isto…

Claramente, eu não estava no meu juízo perfeito quando decidi subir ao Monte Rinjani. Ainda estava às voltas no saco-cama a tentar adormecer, quando os nossos guias nos vieram acordar. Era uma da manhã em ponto e estava na hora de começar a caminhar de novo. Esperavam-me as quatro horas mais duras da minha vida.

Com uma lanterna que me deixava apenas ver um metro à frente dos olhos, subimos a montanha por um troço com um declive inumano. O terreno torna-se praticamente areia e a cada passo em frente, recuo metade. O fôlego foge-me a cada dois passos e rapidamente perco o meu grupo de vista. Estamos todos no limite e é cada um por si. Um dos guias fica para trás e vai esperando por mim. Já não se ri. Desconfio que isto também não é fácil para ele. A meio do percurso, ainda no breu, partilhamos uma barrita energética sem dizer palavra.

Finalmente, quando o sol começa a aparecer no horizonte, estamos a uns meros 200 metros do cume do Monte Rinjani. Olho para trás pela rampa de areia e consigo finalmente vislumbrar o quanto andei no meio noite. Provavelmente, se eu tivesse visto mais do que um metro à frente dos olhos, não teria chegado aqui.

monte rinjani

vulcao indonesia rinjani

As últimas duas centenas de metros levam quase meia hora. Começo a sentir a altitude na cabeça e no estômago, mas estou demasiado perto para voltar para trás. Não é hora de capitular: um pé em frente do outro. Quem caminha ao meu lado também está no limite. Alguns metros à frente seguem os meus colegas de batalha. Afinal, sempre estivemos lado a lado e não sabíamos.

O sol já tinha nascido quando atinjo o cume, mas isso não retira em nada a beleza e a superação do momento. 3.726 metros de altitude, 17 quilómetros de caminhada em 2 dias. Estamos acima das nuvens com um horizonte infindável. De um lado, a ilha de Lombok e, ao longe, as ilhas Gili e Bali. Do outro, o lago Segara Anak, bem mais longínquo que no dia anterior. Dentro da cratera gigante fumega o vulcão ativo, Gunung Baru Jari. Estamos no topo do (nosso) mundo.

monte rinjani

monte rinjani

Até à Senaru, no lado oposto do Monte Rinjani

Os joelhos sofrem, mas desço pela areia quase a passo de corrida. Há tempo para apreciar aquilo que não vimos durante a subida, mas pelas 9 da manhã já estamos de regresso ao acampamento. Os carregadores servem-nos o pequeno-almoço e um dos guias pergunta-nos se estamos prontos para começar o dia. Já se ri de novo.

monte rinjani

Depois de um descanso mais curto do que aquele que as nossas pernas nos pediam, começamos a caminhar de novo. À hora de almoço já estamos muito perto do lago Segara Anak. Depois da refeição, mergulhamos para um banho merecido. Os músculos doridos agradecem, e o espírito renova-se. Bem precisa. Está na hora de subir de novo.

lago rinjani

lago rinjani

monte rinjani

vulcão rinjani

Este lado da montanha é bem mais rochoso. Passo a passo, quase trepamos pela cratera acima, até ao topo de Senaru. O sol estava já a esconder-se quando vemos o nosso novo acampamento. Chegámos no momento ideal para apreciar os últimos raios de sol a tocarem o cume do Monte Rinjani. É irreal pensar que de manhã, tínhamos estado lá longe, do outro lado da cratera, no cume da montanha. Naquele dia tínhamos caminhado 16 horas. Sem dúvida, o dia mais violento de sempre. E a superação mais tempestiva.

monte rinjani

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De regresso à base

Apesar das maleitas e fadigas acumuladas, no terceiro e último dia de caminhada regressamos ao ritmo militar. Marchamos pela montanha abaixo à medida que o terreno tropical nos volta a acompanhar. As árvores gigantes, os animais selvagens e os risos estão de novo no nosso caminho. Quase no sopé, paramos para colher um cacau.

monte rinjani

Quando chegamos à entrada do Parque Nacional do Monte Rinjani, é tempo para uma última fotografia e para as despedidas. Por esta altura, cada músculo do nosso corpo começa a latejar, mas sabemos que saímos daqui com uma energia e uma força que nos enche a alma. Se conseguimos isto, conseguimos tudo. Venha de lá o que vier. Por entre as árvores, reconhecemos um ponto ao longe, que se ergue acima de qualquer outro. Porra, nós estivemos ali. E fomos pelo nosso pé.

monte rinjani

Dicas Práticas para o Monte Rinjani

  • Os carregadores levam as tendas, os sacos cama e a comida, mas cada montanhista deve levar os seus objetos pessoais. Levem apenas o essencial. Uma mochila de 5kg, no máximo.
  • Confirmem com o vosso operador turístico que material é que eles vos podem emprestar. É importante levar botas, bastões de caminhada (mesmo!), uma lanterna que possam colocar na testa, roupa quente, luvas e um corta-vento.
  • Se fizerem a caminhada de 3 dias / 2 noites, que passa pelo lago, levem roupa de banho e chinelos.
  • Levem papel higiénico, toalhitas e álcool-gel. Não há casas-de-banho durante os três dias de caminhada.
  • É importante levar uma bolsa de medicamentos, com analgésico, anti-infamatório e antidiarreico (Imodium).
  • Não se esqueçam de levar tampões para os ouvidos. O barulho do vento não me deixou dormir à noite.
  • O Monte Rinjani está a ficar com muito lixo deixado pelos caminhantes. Levem convosco todo o lixo e desfaçam-se dele apenas quando chegarem ao sopé da montanha.

monte rinjani lombok

Como subi ao Monte Rinjani

Há várias opções para subir ao Monte Rinjani. É possível fazer o percurso sem guia, mas não é o mais recomendável. Não porque se possam perder – o caminho é bastante óbvio – mas porque é praticamente impossível fazê-lo carregando o material de campismo. Especialmente no segundo dia.

Os operadores turísticos oferecem diversos pacotes. O programa 2 dias / 1 noite é aquele que tem um menor nível de dificuldade. No segundo dia de manhã chega-se ao cume e desce-se pelo mesmo caminho até ao sopé da montanha, regressando ao ponto de partida ao final pela hora de almoço.

Contudo, o programa que mais me atraiu (e o descrito aqui) foi o de 3 dias / 2 noites. Além da subida ao cume no segundo dia, passámos pelo lago, atingindo o topo da cratera oposta ao cume no final do segundo dia, sendo a descida no terceiro dia. O programa é recomendado apenas para caminhantes com experiência, mas, mesmo assim eu alistei-me e consegui terminar.

Existe também o programa 4 dias / 3 noites. O percurso é exatamente o mesmo do programa anterior, mas é tudo feito mais devagar. Caso não estejam em boa condições física, esta pode ser uma opção.

Eu subi ao Monte Rinjani com a agência Rinjani Hero. Eles têm os programas 2 dias / 1 noite, 3 dias / 2 noites, 4 dias / 3 noites, e outras opções que podem explorar no website.

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Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

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CONTRAMAPA

12 comentários
  1. Filipe
    Filipe says:

    Excelente relato de um passeio que apesar de diferente para o viajante normal, tem tudo para ser uma aventura rejuvenescente.

    Para chegar à ilha, que opções existem, e qual recomendas?

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    • contramapa
      contramapa says:

      Obrigada! 🙂
      Há voos diretos para Bali, das Flores e de Jakarta. Há também os fast boats a várias horas do dia, desde as ilhas Gili e de vários pontos de Bali. É muito fácil lá chegar. Eu fui de fast boat deste Gili T, comprei o bilhete no próprio dia de barco!

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  2. rui batista
    rui batista says:

    Ainda estou a arfar de ler a aventura da subida :))) Fez-me lembrar alguns desafios igualmente ‘insanos’ que decidi assumir, sem medir bem o meu grau de preparação. O melhor de tudo? A forma fantástica como contas tudo… não há muitos bloggers de viagens a conseguir empolgar com a escrita: parabéns!

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  3. Ruthia
    Ruthia says:

    Bolas, mas isso não podia ser feito com um bocadinho mais de calma? 16 horas a caminhar num só dia parece-me insano. Felizmente aguentaste. Lindo momento de superação.

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  4. Amilton Fortes
    Amilton Fortes says:

    Nossa, que relato mais lindo e rico em detalhes! Não pretendo fazer uma caminhada dessas, mas ler o seu texto me fez sentir como se estivesse lá!

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  5. Livia Zanon
    Livia Zanon says:

    Diana, parabéns!! Admirei sua coragem e persistência, que lugar lindo mas também que dificuldade… Sei que isso faz valer a pena no final, mas pra mim que tenho problema na coluna e muitas dores, preciso reconhecer minha limitação e vc narrando e sendo verdadeira e transparente ajuda o leitor a saber se aquilo é pra ele ou não. =) Adorei conhecer o Monte Rinjani através do seu post, e acho que ficarei só através dele mesmo kkkkkkkk

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