Madeira, uma ilha num arquipélago homólogo, conhecida mundialmente pelo seu fogo de artifício de ano novo, pelas hordas de reformados que recebe anualmente e pelo clima ameno que perdura pela grande maioria do ano. Acrescentamos uma espetada em pau de loureiro e um rancho de baile da madeira e ficamos com a imagem que encontramos nas brochuras de qualquer agência de viagens. Boring, I know.

The journey

De mochila feita, embarco no EZY7601, no T2 em Lisboa, com pouco mais do que um par de botas de caminhada e um punhado de esperança de que os próximos 5 dias fossem um pouco mais do que bolas de naftalina.

A EasyJet não desaponta nas suas ligações matinais e arrancamos a horas, com a promessa de céu limpo e vento moderado, portanto é possível imaginar a minha decepção quando o piloto, ao chegar ao aeroporto do Funchal, aterra à primeira tentativa sem sequer vacilar. Uma desilusão total, já que este seria o apogeu da adrenalina de toda a viagem.

Já à saída do terminal, e graças à amabilidade da Europcar, consegui finalmente aumentar as batidas cardíacas para um nível aceitável. Atenção ao cliente é de facto importante, e neste caso apenas tenho a congratular o funcionário que preparou o Clio para mim, e convenientemente gastou os travões apenas para que eu pudesse sentir a emoção de passar por um entroncamento sem parar directamente para a estrada nacional. Claro que ainda não estava bem ciente da quantidade de curvas e ladeiras com declives vertiginosos que me esperavam, o que em si foi uma outra experiência bastante recompensadora a nível espiritual.

Os reformados foram de autocarro.

madeira portugal

The lodging

A ilha da Madeira tem um óptimo clima durante todo ano, em especial na parte sul da ilha, onde aliás podemos encontrar praias com areia dourada, como a Caleta. Como seria de esperar, tinha reservado o alojamento no centro do lado norte da ilha, longe dos turistas.

Por um punhado de euros aluguei uma moradia inteira, via Airbnb, para as quatro noites que iria passar na ilha. Uma autêntica vila na aldeia do Arco de São Jorge, povoação com meia dúzia de habitantes, mas com o seu próprio café e restaurante. Estamos a falar de uma aldeia de beira de estrada, que serpenteia montanha acima, enclausurada em densa vegetação.

Munido de uma Salamandra em ferro fundido, de dois andares e camas para cinco pessoas, o que mais se podia pedir senão conseguir ouvir a rebentação das ondas a meio da noite, tão bem que nos acorda de sobressalto? Romântico, sem dúvida. Tal como o chinfrim de acasalamento das perdizes, ensurdecedor logo após o pôr do sol.

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The trails

Sem dúvida, as caminhadas vertiginosas foram o que mais se seduziu em toda a ilha, e não podia esperar para me enfiar mato adentro e perder-me algures numa gruta manhosa. E nem por acaso, junto ao portão da minha moradia estava marcado o início de um percurso pedestre, que transportaria os seus transeuntes montanha abaixo até ao mar, sempre por caminhos esculpidos na encosta rochosa, excelente para vertiginosos. O trilho em si estava bem demarcado e com zonas pavimentadas e até algumas escadas em passagens com maior declive, além do corrimão que o acompanha em todos os troços perigosos. Afinal de contas, a Madeira é um destino turístico para férias em família, e os trilhos não são excepção.

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O ponto mais alto da ilha da Madeira é o Pico Ruivo com 1861m, sendo o segundo mais alto o Pico do Areeiro. Estes cumes ficam no centro da ilha, e estão ligados entre eles pelo trilho pedestre denominado de PR1, com a distância de 5.6km, em cada sentido. Trata-se de um trilho classificado como difícil devido à altimetria acumulada e às passagens vertiginosas. Este definitivamente não é aconselhado para famílias com crianças mais novas.

Do topo do Pico do Areeiro, ponto de partida, fiquei já por cima das nuvens, o que de certa forma deu uma certa mística ao cenário, mas por outro lado diminuiu bastante o horizonte observável. O trilho começa ao lado do observatório, onde se compram os típicos souvernirs made in china, e onde muitos apenas contemplam o início do caminho a perder-se por entre os picos rochosos.

madeira portugal

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O cenário durante o trilho varia entre o Jurássico, o lunar e o épico. O início do trilho leva-nos por caminhos que nos fazem lembrar Mordor, para assim que atravessamos o primeiro túnel nos fazer pensar que voltámos atrás no tempo e que a qualquer momento vamos ver um pterodactyl a esvoaçar por entre as montanhas e bicar um camone do trilho. São vários os túneis, e as escadarias em pedra dissipam qualquer esperança de acabar o trilho sem dores. Um pé mal colocado, e ao invés de um tornozelo inchado acabamos no fundo de uma ravina.

madeira portugal

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A última parte do trilho leva-nos através de um cemitério de árvores, onde os degraus dão lugar a terreno plano. No dito Pico Ruivo existe um pequeno abrigo, com chá quente por cinquenta cêntimos, e desde onde se faz a subida final ao miradouro do Pico. Nesta altura nada mais do que nuvens enchiam todas as bandas do espectro visível, mas de qualquer forma o caminho faz-se pela viagem, e não pelo destino.

Foi um dia duro para as pernas.

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Mais a oeste, também algures no meio da ilha e longe de qualquer centro urbano, encontramos as Levadas das 25 fontes e Risco. Estes aquedutos fazem um trabalho exímio no transporte de água pelas serras até onde é necessária. Estas duas levadas, ambas no Rabaçal, ladeiam a serra e passam por várias cascatas e alguns lagos. Atravessam um túnel tão comprido que nem a luz se aventura a entrar sem uma lanterna. A entrada é algo de místico, com um dash de Star Gate SG-1.

O terreno é maioritariamente plano, contudo existem algumas passagens vertiginosas onde não há espaço para mais do que um pé de cada vez. Não obstante, neste percurso encontrei diversos casais que se faziam acompanhar dos seus pequenos exploradores, já a torcer pepinos, mesmo com a chuva que se fazia sentir já desde manhã. Diversão para toda a família, sem qualquer contaminação tecnológica. São os pais, os filhos e um trilho lamacento num dia húmido – ah, felicidade.

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Sem dúvida, um paraíso perdido no meio ilha, aqui tão perto.

The food

Na costa sul da ilha encontramos a cidade do Funchal, onde aproveitei para fazer baptismo de mergulho e comer um T-Bone no restaurante argentino “La vaca loca”, apesar de não ter reserva. A estátua do Cristiano Ronaldo tinha sido retirada, provavelmente para manutenção e exacerbamento adicional da terceira perna, as esplanadas tinham muitos turistas e as praias mulheres de meia idade em topless. A cerveja da ilha, Dorada, é de facto boa. As lapas são um bom petisco, mas um jovem do continente como eu prefere uma boa travessa de caracóis. Já as espetadas em pau de loureiro são outra coisa, feitas com carne tenra de novilho – uma autêntica delícia.

Em Porto Moniz, ponta noroeste, o temperamento do Atlântico ajudou a desenhar um complexo de piscinas naturais. Nesta pequena localidade imperam os restaurantes com promessas de bom peixe. O vinho da Madeira é na verdade Moscatel, a Poncha é a versão tropical de uma Caipirinha, e há até quem diga que a Caipirinha é a versão brasileira da Poncha. O bolo do caco é excelente para fazer hambúrgueres e o peixe espada com banana e maracujá é exactamente aquilo que parece ser.

Não se come mal, mas o ex-líbris da ilha são mesmo os trilhos fantásticos e o contacto com a natureza, despido de turistas e do seu entulho. Contudo, não cheguei a ver o fogo de artifício, mas algo me diz não conseguirá ser melhor do que o de Almada nas comemorações do 25 de Abril.

Este artigo pertence à série Palavra Puxa Palavra, as crónicas do Contramapa escritas por viajantes convidados.

 

Filipe Guerra

Nascido e criado na Margem Sul. E por lá vivendo. Nas horas vagas e dias de folga, dedica-se a explorar outras paragens, especialmente a pé e de bicicleta. Quis tirar uma Licenciatura com Mestrado Integrado em BTT. Não havia. Tirou Engenharia Informática e dedica-se a que haja menos ataques de nervos nas empresas por causa do SAP.

18 replies
  1. Naiara Back de Moraes
    Naiara Back de Moraes says:

    Estou para conhecer a Ilha da Madeira e os Açores em 2017! Pra mim, essas duas ilhas são um mundo a parte de Portugal 🙂 Fazer uma peregrinação pela Madeira deve ser revigorante e sem sombra de duvidas uma experiência sensacional.

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    • contramapa
      contramapa says:

      Naiara, vale MUITO a pena! Eu já fui aos Açores e adorei! O meu irmão (que escreveu este artigo) foi à Madeira o ano passado e ficou completamente fascinado, superou muito as expectativas! Obrigada pelo comentário!

      Responder
  2. Elisabete
    Elisabete says:

    Adorei o texto ,parabéns. No dia 3a5 fevereiro vou lá mais a minha filha fazer uma vista.ando nas pesquisas de transporte ,locais,hostel essas coisas,mas acredito que vai ser uma aventura

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    • contramapa
      contramapa says:

      Vai ser sim uma aventura… Espero que corra tudo bem e que aproveitem a viagem! A Madeira tem muito para ver e fazer, mesmo no inverno 🙂

      Responder

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