Caminho Português de Santiago: Dicas completas!

O meu Caminho Português de Santiago começou em Valença e demorou 6 dias. Cada uma das etapas do Caminho teve uma beleza especial, e não me refiro apenas à natureza. Para vos ajudar (e incentivar) a partirem nesta jornada de descoberta, deixo-vos aqui algumas dicas práticas para se preparem.

Caminho português de santiago

Caminho Português de Santiago: antes da partida

– Credencial do Peregrino

Ora, decidiram fazer o Caminho Português de Santiago? Muito bem! O primeiro passo é pedir a emissão da Credencial do Peregrino. Assemelha-se a um passaporte e é com este documento que se tem acesso aos albergues públicos e se pode solicitar a Compostela, o certificado de ter cumprido a peregrinação.

A credencial é outorgada por uma entidade religiosa e tem espaços em branco, a serem preenchidos por carimbos (ou sellos em espanhol) durante o Caminho. É válida se for carimbada pelo menos duas vezes por dia: quer seja em albergues, em igrejas, em cafés ou quaisquer outros estabelecimentos abertos ao público.

Existem vários locais onde a Credencial do Peregrino pode ser pedida. Eu pedi no Espaço Jacobeus, através do formulário do website. Custou 2€ + 0,80€ de portes de envio. Recebi um e-mail de confirmação e a credencial foi-me enviada por correio em menos de 5 dias úteis.

As credenciais podem também ser pedidas online ou fisicamente na APASS. Em Lisboa, a Sé Catedral e a Basílica dos Mártires também têm credenciais, tal como a Sé Catedral do Porto.

Não é necessário ser-se católico para pedir a Credencial do Peregrino.

– Planeamento das Etapas do Caminho Português de Santiago

O segundo passo é planear as etapas do Caminho Português de Santiago e adaptá-las ao vosso ritmo e condição física. Para principiantes que não costumam fazer exercício físico, o ideal é começar o Caminho em Valença, como eu fiz. São 120km e podem ser feitos em 6 dias. É um percurso que requer esforço físico, como qualquer peregrinação, mas que pode ser feito por todo o tipo de caminhantes. Vi pessoas de todas as idades neste percurso, desde crianças a gente mais sénior. A parte boa é que, como existem albergues em praticamente todas as povoações, cada peregrino pode adaptar-se, tornando as suas etapas mais longas ou mais curtas.

Se estiverem em boa condição física, podem fazer o Caminho desde o Porto. São 240km, feitos normalmente em 10 dias. Para os mais destemidos, o Caminho oficial começa em Lisboa: são 640km, feitos tipicamente em 30 dias.

Para fazerem o vosso plano, consultem o Manual do Caminho Central de Santiago. Aqui encontram uma descrição das etapas standard do Caminho desde Lisboa, com o número de quilómetros, altimetria e povoações.

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– Onde dormir: Albergues do Peregrino e outras opções

Depois de definirem as etapas, podem começar a pensar onde vão dormir. Ao longo do caminho são várias as opções, desde camaratas comunitárias a hotéis e alojamento rural.

Albergues Públicos

A opção mais em conta e mais comunitária são os albergues públicos / albergues de peregrinos. Custam 6€ por noite em Espanha e é necessário apresentar a Credencial do Peregrino. São compostos por camaratas mistas com dezenas de beliches e estão equipados com cozinhas, utensílios de refeições simples, casas-de-banho e salas de estar. Há também pequenos tanques e sabão para lavar a roupa à mão. Normalmente têm wifi.

As camas têm colchões plastificados e não são fornecidos lençóis nem toalhas, pelo que temos de levar saco-cama. Estes albergues são bastante concorridos e normalmente abrem entre as 14h00 e as 15h00 para check-in. Tipicamente, os peregrinos chegam antes desta hora e fazem fila à porta, à espera de poderem entrar. Isto acontece principalmente em albergues mais pequenos.

Os albergues públicos (à exceção do de Santiago de Compostela) não podem ser reservados com antecedência e são ocupados por ordem de chegada. Portanto, se quiserem ficar nestes albergues, terão de chegar por volta da hora de abertura (ou antes, no caso dos mais pequenos). Se chegarem muito mais tarde, o mais provável é que encontrem o albergue lotado. Apenas se pode ficar nos albergues públicos uma noite (exceto por motivos de força maior).

Eu fiquei em albergues públicos em Valença, O Porriño, Pontevedra, Padrón e Santiago de Compostela.

Albergues Privados

A segunda opção são os albergues privados, que custam entre 10€ e 12€. Da minha experiência, estes albergues são um pouco mais confortáveis, já que têm menos camas por quarto. Têm todas as condições de um albergue público e normalmente disponibilizam lençóis lavados.

Eu fiquei num albergue privado em Redondela. Acabou por ser a minha melhor noite no Caminho, já que o nosso quarto tinha apenas 10 camas e era bastante silencioso. As instalações eram modernas e as casas-de-banho tinham sido recentemente remodeladas. Foram-nos dados lençóis e a lavagem de roupa à máquina era gratuita.

Tal como um hostel, os albergues privados podem ser reservados com antecedência, se quiserem ter essa garantia. Da minha experiência, não acho que seja necessário reservar albergue privado no Caminho, desde que se chegue ao destino até ao início da tarde.

Hotéis

Para quem se quer sentir mais confortável no Caminho, há também várias opções de hotéis. Os preços variam bastante, de acordo com a categoria do hotel e muitos têm bons equipamentos como piscina, spa, ginásio e pequeno-almoço continental.

Como a oferta hoteleira nestas povoações não é elevada, caso queiram uma opção com maior conforto, aconselho-vos a reservarem antes de iniciarem a vossa peregrinação. Aqui o único inconveniente é que o vosso Caminho torna-se menos flexível: não podem parar mais cedo se estiverem cansados ou andar mais uns quilómetros se tiverem ainda energia.

Vejam abaixo a oferta de hotéis para o Caminho Português de Santiago desde a fronteira espanhola:

Valença | Tui | Porriño | Redondela | Pontevedra | Caldas de Reis | Padrón | Santiago de Compostela

Caminho português de santiago

– Preparação Física

Ora muito bem, como já tinha referido aqui, eu não fiz qualquer tipo de preparação física e tive sorte: não me magoei, não tive dores para além do normal, não tive cãibras nem bolhas. Contudo, nem toda a gente pode dizer o mesmo.

Se não estão habituados a fazer qualquer atividade física, o melhor é prepararem-se um pouco. Na minha opinião, para quem faz o Caminho Português de Santiago desde Valença, o treino não precisa de ser muito intenso. Basta que um mês antes da partida, comecem a fazer caminhadas algumas vezes por semana. Assim vão testando as águas… e também as sapatilhas que levam.

Caminho Português de Santiago: a mochila

Para que se sintam confortáveis e sem dores de costas ao longo do Caminho, a vossa mochila deverá pesar entre 5kg e 7kg. Esta é a regra mais importante. Eu cumpri-a à risca e não tive uma ponta de dor nas costas ao longo do Caminho. Depois de fazerem a mochila, pesem-na para terem a certeza que não excede este peso.

Em relação à mochila em si, eu levei uma de 22 litros. Era pequena e ideal para o Caminho, contudo, como eu tinha um saco-cama pouco compacto, senti dificuldade em arrumá-lo na mochila. Aconselho uma mochila de 30 litros, como esta. Continua a ser bastante pequena mas tem mais espaço de arrumação, incluindo bolsas exteriores para guardar a água e o telemóvel, por exemplo. Escolham uma mochila que tenha as alças e as costas acolchoadas para maior conforto. Se a vossa mochila tiver cinto e/ou correia de peito, utilizem-nas para distribuir o peso.

– O que levei na Mochila para o Caminho

Eu sou muito resumida a fazer malas de viagem. Para o Caminho, apliquei esta minha habilidade ao expoente máximo. A verdade é que se deve levar o mínimo possível, até porque a roupa se vai lavando ao final de cada dia. Isto foi o que levei para o Caminho:

  • 2 t-shirts, 1 calção, 1 calças de licra, 1 pijama, 1 casaco de fato-de-treino
  • 2 pares de meias (daquelas grossas de desporto, sem costura) e 3 pares de cuecas
  • Impermeável
  • Biquini
  • Sapatilhas de trekking (nunca por estrear)
  • Chinelos
  • Garrafa de água reutilizável de 500ml (há fontes pelo Caminho e mais do que isto é peso a mais)
  • Saco-cama
  • Boné
  • Toalha de banho de fibra (como esta, que levo em todas as viagens)
  • Porta-moedas, documento de identificação e Credencial do Peregrino
  • Telemóvel, máquina fotográfica, e respetivo carregador
  • Canivete suiço
  • Bolsa de higiene com pasta e escova de dentes, tampões para os ouvidos, escova de cabelo, champô, amaciador, creme de cara, protetor solar e sabão (tudo em embalagens pequenas de 100ml)
  • Rolo de papel higiénico
  • Bolsa de medicamentos com anti-inflamatório (Brufen), Paracetamol (Ben-u-Ron), pensos para bolhas (da Compeed, há na farmácia), voltaren gel para as dores musculares, pensos para feridas, mini-frasco de álcool e outros medicamentos que tomem.
  • Sabão para a roupa e duas molas (para prenderem a roupa à mochila e ela ir secando durante o dia)

Tenham em conta que fiz o percurso em junho, numa altura de bastante calor. Não levei comida (há cafés e supermercados ao longo do Caminho), nem óculos de sol, livros ou lanterna. Se não tivesse o blog, também não teria levado máquina fotográfica. Meus amigos, o Caminho é despojamento.

Caminho Português de Santiago: no caminho

– Chegar ao ponto de partida

Bom, a mochila está pronta? Então, está na hora de começar a andar. Como parti de Valença, fui no dia anterior através da Rede de Expressos, dormi no albergue de peregrinos e iniciei o Caminho no dia seguinte de manhã. Podem também ir de comboio através da CP – Coimboios de Portugal. De Lisboa para Valença não há comboio direto, terão de trocar no Porto.

– Vou-me perder no Caminho?

Basta seguir as vieiras de azulejo ou as setas amarelas (vejam a imagem abaixo). A ponta da vieira indica sempre a direção correta. O Caminho está bem demarcado e não se vão enganar. Se tiverem dúvidas, vão encontrar alguém que vos possa ajudar. Nós fizemos 120km desde Valença até Santiago e não nos enganámos nenhuma vez. E acreditem que o meu sentido de orientação não é a melhor coisa deste mundo. Na primeira etapa (que podem ler aqui) fizemos, até, um desvio, que estava bem sinalizado. É ir, sem medo.

Caminho português de santiago

Ao longo do Caminho vão também encontrar setas azuis. Não sigam essas setas. Apontam na direção contrária e marcam o Caminho para Fátima. As setas do Caminho de Santiago são sempre amarelas.

– Madrugar e andar com ritmo

Nós aprendemos logo no final da primeira etapa que tínhamos de acordar bem cedo. Quanto mais madrugarem, menos vão sentir o calor ao longo da etapa. Também é importante terminar a etapa cedo, para poderem encontrar alojamento, almoçar e descansar durante a tarde.

Por norma, nós acordávamos pelas 5h30 e saíamos do albergue pelas 6h30. Dependendo dos dias, entre as 13h00 e as 14h00 estávamos a terminar a etapa.

Outra coisa que nos ajudou foi andar com ritmo, fazendo várias paragens ao longo da etapa. Quando estamos cansados, não vale a pena estar a arrastar os pés. Estamos a cansar-nos à mesma e a andar muito pouco.

– Cuidado com as bolhas!

As bolhas nos pés são um dos piores males do peregrino. Não sofri delas, mas vi bem de perto o desespero de uma amiga. Deixo-vos então alguns conselhos que podem ser muito úteis. Vão por mim: por alguma razão, os meus amigos chamam-me Diana Saúde 24.

  • Levem as unhas cortadas rente à unha
  • Não molhem os pés antes ou durante a caminhada
  • Levem pensos Compeed com vocês. São caros, mas vão agradecer aos anjinhos se tiverem uma bolha
  • Coloquem creme ou vaselina nos pés antes do início da etapa, principalmente junto às zonas de fricção
  • Levem meias de algodão e usem-nas ao contrário caso tenham costuras
  • Se os problemas com bolhas forem recorrentes, calcem uma meia de vidro antes da meia normal
  • Nunca estreiam calçado novo no Caminho (NUNCA!)
  • Não apertem demasiado os atacadores, deixem uma certa folga
  • Se sentirem uma fricção no pé, ardor ou desconforto, devem parar de imediato, descalçar-se, deixar os pés respirar durante uns 15 minutos e colocar creme. Não deixem a bolha formar-se!
  • Caso surjam bolhas, não as rebentem. Coloquem o penso Compeed por cima.

– Chegada a Santiago: A Compostela

À chegada à Catedral de Santiago, poderão pedir a Compostela se tiverem pelo menos dois carimbos por dia na Credencial do Peregrino. A Compostela é um certificado que garante que cumprimos a peregrinação, para quem fez pelo menos 100km a pé ou 200km de bicicleta ou a cavalo.

A Compostela não é pedida na Catedral, mas antes na Oficina do Peregrino de Santiago, que fica a 300 metros. É gratuita, basta esperar na fila. Na Oficina, a Credencial é carimbada por uma última vez com a data de chegada. É-nos entregue a Compostela e, por 3€ podemos também ter o Certificado da Distância Percorrida.

Caminho Portugues de Santiago (1)

A Oficina do Peregrino de Santiago funciona na Rua das Carretas, 33, Santiago de Compostela. Da 1 de abril a 31 de Outubro, está aberta das 8h00 às 20h00. No inverno funciona das 10h00 às 19h00. Encerra a 25 de dezembro e a 1 de janeiro.

Já a Catedral de Santiago, que contém o sepulcro do Apóstolo Santiago Maior, está aberta todo o ano, das 7h00 às 20h30. O ritual do Abraço ao Apóstolo é feito pelos devotos entre as 9h30 e as 13h30 e entre as 16h00 e as 19h30. A Missa do Peregrino decorre aos dias de semana às 12h00 e às 19h30. Ao fim-de-semana decorre também às 10h00 e às 18h00. Aos domingos e dias festivos, há também às 13h15. Mais informações, aqui.

– Regresso a Casa

Para regressar de Santiago de Compostela, há os autocarros da Alsa, directos para Lisboa, Porto, Coimbra e outras cidades. Vejam aqui. Os bilhetes custam 50€ para Lisboa ou 34€ para o Porto.

Existe a possibilidade de regressar de comboio pela Renfe. Para tal, é preciso apanhar o comboio regional de Santiago de Compostela para Vigo. Em Vigo, apanhar o Trencelta para o Porto. E, finalmente, no Porto apanhar o Alfa ou o Intercidades para Lisboa (ou para outra cidade).

Não existem voos diretos de Santiago de Compostela para cidades portuguesas, mas a TAP opera voos diretos de Vigo para o Porto e Lisboa.

Caminho português de santiago

E, com, com isto, acredito que estão mais do que prontos para partir rumo a Santiago. Muito mais do que eu estava. Leiam também o Resumo das Etapas de Valença a Santiago. Ajudei-vos a planear o vosso Caminho Português de Santiago? Tenho a certeza que sim. Podem retribuir ao seguirem o Facebook do Contramapa, o Instagram e o Twitter. Se forem mesmo fofinhos, podem partilhar este artigo nas vossas redes sociais. 

Para um gostinho do (meu!) Caminho Português de Santiago desde Valença, cliquem numa das imagens abaixo e percorram a galeria de fotografias. 

Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

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CONTRAMAPA

16 comentários
  1. Albino Marques
    Albino Marques says:

    Olá Diana.
    Excelente trabalho. Provavelmente dos melhores que vi até agora. Irei publicar na nossa página da AEJ, para consulta e ajuda para quem necessita de dicas.
    Parabéns.
    Suseia.

    Responder
  2. Romana fernandes
    Romana fernandes says:

    Olá!
    Gostei muito de ler o seu artigo!
    Muito importante, informações uteis, sobretudo para quem gosta de descobrir novas paragens.
    Quero fazer o caminho de Santiago e as suas informações vieram me incentivar ainda mais.
    Obgrigada,

    Responder
  3. Catarina Gralha
    Catarina Gralha says:

    Muito bom 😀 Quando estiver realmente decidida a fazer o Caminho, venho aqui novamente. Eu queria fazê-lo desde Lisboa, mas talvez me fique pelo Porto. Não sei, tenho de planear e ver o tempo que tenho quando o decidir fazer. Acho que era um bom treino para o Appalachian Trail (é, eu sou meia louca).

    Responder
  4. Ana Mungioli
    Ana Mungioli says:

    Ah! Quero muito fazer! Eu fui direto pros finalmentes e visitei Santiago e Finisterre sem andar nadinha! hahahahh

    Mas um dia eu tiro férias e me animo! Vou guardar seu post, caso eu decida sair de Portugal!
    Bjs!!!

    Responder

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