Um dos últimos fins-de-semana foi passado na Serra da Estrela no distrito da Guarda. Neve, só lá em cima, nas Penhas Douradas e Penhas da Saúde… mas não foi por isso que me faltou que fazer. Visitar a Serra da Estrela tem muito que se lhe diga!

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A vila de Manteigas, capital do burel

Situada no coração da Serra da Estrela, a vila de Manteigas é provavelmente uma das povoações mais conhecidas na região do vale glaciar do Zêzere. Os chalets de montanha das Penhas Douradas e a Torre da Serra da Estrela ficam mesmo ali ao lado, mas não precisei de subir lá acima para encontrar que fazer… E foi por aí que começámos a visitar a Serra da Estrela.

Manteigas e a região em redor são conhecidas pela produção de burel, um tecido artesanal português feito de lã da Bordaleira (raça de ovelha), que é, ao mesmo tempo, quente e impermeável. A fabricação deste tecido remonta, pelo menos, ao século XIV e é específica da Serra da Estrela, tendo se tornado num tecido fundamental para os pastores da região.

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Ao longo dos anos, a produção de lanifícios foi se modernizando, atingindo o seu apogeu após a II Guerra Mundial, onde chegou a empregar 30.000 pessoas na região da Serra da Estrela. Após um declínio marcado na década de 1970, a indústria soube modernizar-se e hoje produz milhões de metros de tecido anualmente, principalmente para exportação. Não sabemos, mas existem grandes marcas mundiais a usar lã made in Serra da Estrela.

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No entanto, a Revolução Tecnológica não chegou a todas as empresas de lanifícios. E não chegou a uma delas por opção. Na Ecolã Portugal, fundada em 1925, a produção de lã e, mais especificamente, do burel continua a fazer-se de modo artesanal. Aqui podemos ver como tudo era feito na primeira metade do século XX, quando a modernização ainda não tinha chegado à Serra da Estrela.

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Os 6 processes chave – tosquia, lavagem, fiação, tecelagem, ultimação e produto final – são assegurados aqui por apenas 16 pessoas. No caso do burel, é acrescentada a fase de pisoar o tecido, que consiste na compressão do mesmo, utilizando uma espécie de almofariz gigante. É esta compressão que torna o tecido, além de quente, impermeável. Tudo isto é feito manualmente em máquinas cujas peças de substituição foram descontinuadas há muito. Imaginem que apenas a montagem de um rolo de tecido para tecer demora entre 1 e 2 dias…

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A fábrica da Ecolã fica na vila de Manteigas (em Amieiros Verdes) e aceitam visitas todos os dias da semana. Se quiserem visitar a loja em Lisboa, fica na Praça do Príncipe Real, 26, e está aberta todos os dias até às 20h00.

A cidade da Guarda, onde o galo é julgado

Depois de Manteigas, seguimos para a Guarda. A passagem pela cidade foi breve, mas ainda consegui vislumbrar as festividades do Carnaval.

Durante os dias anteriores à terça-feira de Carnaval, o município organizou um roteiro de tascas pela cidade nas lojas fechadas no centro da cidade. Funcionando como uma tentativa de revitalizar o comércio tradicional da cidade, existiam dezenas de tascas improvisadas no meio da cidade a servir ginjinha, jeropiga, chouriço assado, alheiras e outras iguarias regionais.

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O momento alto do Carnaval da Guarda foi no domingo ao fim do dia: o julgamento e morte do galo. No centro da cidade, é encenado o julgamento, em que a mulher do taberneiro condena o galo à morte. Antes de morrer, o galo lê o seu próprio testamento, texto que é reescrito anualmente à luz dos acontecimentos. Depois de o galo dizer mal do governo, dos banqueiros e de outros tais, é feito em cinzas, na esperança que, com ele, vão também os males da sociedade… Uma expiação pública, em estilo.

Carnaval Guarda

A cidade de Trancoso e as raízes medievais

No dia seguinte, arrancámos para Trancoso, uma cidade com longa história. É que não é por acaso que as pinturas rupestres de Foz Côa ficam a apenas 50km de distância…

A cidade já existia na época de D. Afonso Henriques, e, por isso, o património medieval é extenso. Dentro de muralhas, temos o castelo de Trancoso, o monumento mais conhecido na cidade, com quase 1.000 anos de história. As Igrejas de Santa Maria, S. Pedro e da Misericórdia (sim, 3 igrejas dentro de um pequeno centro histórico) também merecem destaque, tal como o Pelourinho de estilo manuelino.

Existem também muitos vestígios da religião judaica, já que existia uma elevada população judia. Aqui, pode ser visitada a Casa do Gato Negro, o Poço do Mestre e a Casa Judaica. Nestes edifícios e nas ruas da judiaria podem ser descobertos símbolos judeus, como o cruciforme, mezuzáh (buraco na ombreira da porte onde era guardado um pergaminho com manuscritos religiosos) e inscrições.

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A vila de Celorico da Beira, capital do queijo da Serra da Estrela

Passada a manhã, começou a dar aquela larica… E Celorico foi a povoação ideal para visitar a seguir. Considerada a capital do queijo da Serra da Estrela, a vila tem 5 produtores certificados e condições naturais ideais para a produção. E foi exatamente isso que lá fui fazer. Comer queijo.

Durante uma semana, em fevereiro, decorreu a Feira de Queijo de Celorico da Beira e pude experimentar todas as barraquinhas antes de escolher o meu. Além de queijo, a feira tinha também um espaço de restauração tradicional, ideal para almoçar.

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Linhares da Beira, aldeia histórica

Para terminar de visitar a Serra da Estrela, fui a uma das aldeias históricas da zona. Com um castelo no topo da aldeia, sobre uma massa gigante de granito e casas na mesma pedra, Linhares da Beira é habitada desde a Idade do Ferro e sobreviveu às invasões romanas visigodas, muçulmanas e castelhanas.

Entre as ruas de pedra encantadoras, este é um recanto da serra que vale a pena descobrir com calma. Além do castelo com uma vista soberba sobre a serra (edificado por D. Dinis), há o pelourinho, a Igreja Matriz e a janela manuelina da Rua do Passadiço.

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Visitar a Serra da Estrela – Onde Comer

Soadro do Zêzere, Valhelhas

Numa dia gelado, ventoso e chuvoso, o melhor aconchego que podemos ter é a boa comida serrana. Ao lado de uma lareira bem recheada, claro. Localizado em Valhelhas, mesmo ao lado de Manteigas, este restaurante faz as delícias de quem esteja pela região.

Depois de uma entrada prometedora – um queijo fresco de leite de cabra com pimenta e azeite sobre pão torrado – segui para o prato principal. E escolhi duas especialidades locais: sopa seca e cabrito em panela de ferro. Ambos divinais, mas preferi a sopa seca: um espécie de cozido à portuguesa em que o pão substitui a batata.

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E quando uma pessoa já está quase pronta para dormir a sesta, eis que surgem as sobremesas. À boa moda das Beiras, estas são servidas em buffet e cada um pode escolher aquilo que mais lhe apraz. Entre pudins e bolos de chocolate, lá consegui sair do restaurante. Mas, a custo. A muito custo.

O Soadro do Zêzere fica na Estrada Nacional, número 232 (telefone: 275 487 114). Em Valhelhas, junto a Manteigas. O preço médio da refeição varia entre 15 e 18 euros. Além do restaurante, o Soadro tem também alojamento, e os quadros duplos variam entre 40 e 50 euros, com pequeno almoço incluído.

Restaurante Bem-Haja, Nelas

Este restaurante é simplesmente a paragem obrigatória em qualquer viagem de regresso da Serra da Estrela. Localizado já em Nelas (distrito de Viseu) a 20km de Seia, onde começa a Serra da Estrela, este é facilmente um ponto de passagem para quem venha do Porto ou de Lisboa.

Num ambiente acolhedor e de lareira acesa, o Bem-Haja recebe os serranos – e outros visitantes – com um magnífico buffet de entradas. Ele é empadas de galinha, ele é rissóis, ele é peixinhos da horta, ele é salada de polvo, ele é folhados, ele é carnes frias, ele é bola recheada. E por aí fora. A lista contínua e é preciso fazer um esforço sobre-humano para não ficar por ali…

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Mas é bom guardar algum espacinho para os pratos principais. Que são toda uma nova experiência. O cabrito assado no forno ganhou fama e há quem venha de Braga para matar esse desejo. Os filetes de polvo com migas são outra das especialidades da casa, e com razão. Acho que nunca tinha provado um polvo tão tenro! Já o bacalhau gratinado com queijo da serra faz as delícias de quem já tem saudades da Serra da Estrela…

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Para sobremesa, uma surpresa, desta vez anunciada. Desde o início da refeição que a mesa dos doces regionais caseiros nos olha de soslaio. E são de comer e chorar por mais. Praliné, molotov, pão de ló, bolo de chocolate, tarte de coco… A variedade é imensa e, como é buffet, podemos simplesmente tirar um bocadinho de cada para experimentar tudo. É de sair a rebolar e chorar por mais.

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O Bem-Haja costuma ter casa cheia ao fim-de-semana e é preciso reservar. Fica na Rua da Restauração, número 5, em Nelas (telefone: 232 944 903). O preço médio da refeição é 30 euros. E a melhor parte? Já existe um Restaurante Bem-Haja em Lisboa, com o mesmo conceito. Fica na Rua de Campolide, 165 (telefone: 21 387 0039).

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Visitar a Serra da Estrela – O que comer

Muita da gastronomia regional da serra é conhecida (e apreciada) a nível nacional. Mas fica aqui a lista dos melhores, para que não se esqueçam.

  • Cabrito à Serrano
  • Borrego no forno
  • Sopa Seca
  • Enchidos (morcelas)
  • Caldo de Grão
  • Sopa de Castanha
  • Trutas
  • Bucho com Grelos
  • Bacalhau à Lagareiro
  • Bacalhau à S. Marcos
  • Enguias à S. Bartolomeu
  • Torresmos
  • Sardinhas Doces de Trancoso
  • Cavacas
  • Bolo de Castanhas
  • Requeijão com Doce de Abóbora
  • Paparote
  • Queijo da Serra da Estrela
  • Dom Sancho (na foto abaixo)

Onde ficar / Alojamento na região da Serra da Estrela

Para visitar a Serra da Estrela, eu optei por ficar no centro da Guarda, na Casa da Sé. Esta antiga casa senhorial tem uma longa história e está ligada ao próprio crescimento da cidade.

A casa pertenceu, em tempos, a José Joaquim Rodrigues, que instalou o primeiro banco da Guarda aqui. Um dos sobrinhos-neto do banqueiro, Adelino Lopes, era um ilustre da cidade e desafiou o Estado Novo, quando lhe tentaram expropriar terrenos por causa dos pinheiros. Fez-lhes frente, contratou alguns caçadores e não o conseguiram expulsar!

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Mais tarde, viria a abandonar a cidade e foi nessa altura que a Casa da Sé se tornou uma hospedaria. Sem comodidades de hotel, o melhor desta guesthouse é mesmo o anfitrião. O Daniel é historiador e vive na Guarda desde sempre. O que significa que é a pessoa mais indicada para ajudar com o roteiro, quer estejamos à procura da queijeira mais conceituada, dos trilhos mais escondidos, dos castelos mais bem preservados ou das antas dos nossos antepassados. Ele vai saber guiar-vos e tem muito gosto em fazê-lo!

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Quanto aos quartos da Casa da Sé, são antigos e precisam de alguma renovação. Mas dificilmente se encontra um preço tão em conta para visitar a Serra da Estrela. Ainda para mais, numa casa histórica com quartos cheios de luz. Vale a pena a experiência, nem que seja para conhecer o Daniel. Uma noite num quarto duplo custa a partir de 24 euros. Podem reservar através do e-mail (casadase@outlook.com) ou telefone (962 484 468).

Gostaram de visitar a Serra da Estrela? Foi uma viagem curta, mas deu para conhecer alguns pontos diferentes da serra e matar saudades do frio e da boa comida. Se gostaram do artigo, sigam a página no Facebook, o Instagram e o Twitter.

Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

17 replies
  1. Paulo Vasco
    Paulo Vasco says:

    Adoro, adoro, adoro!
    Manteigas, então… Onde comecei a lecionar e o maior n,º de aulas práticas dei. Assim como Trancoso, que se seguiu no meu percurso profissional. Naqueles tempos, o professor tinha liberdade e tempo para criar. Os pais não implicavam pela abordagem de conteúdos que não constassem nos manuais 🙂
    As fotografias estão maravilhosas, tal como esta região. Muito obrigado por tão bela publicação. <3

    Responder
      • Paulo Vasco
        Paulo Vasco says:

        No caso da Serra da Estrela, e especificamente Manteigas, os mais belos recantos encontram-se a pé. Alguns, felizmente, não estão sinalizados. Escrevo “felizmente” porque assim evita-se a poluição e destruição. Para quem gosta de comer e de belas paisagens, toda a visita foi uma tentação!

        Responder

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