Filha pobre dos Açores, foi-me dito várias vezes que a ilha da Terceira era a menos bela das 9 ilhas dos Açores. A menos surpreendente, a menos verde, a menos espantosa. Esqueçam isso tudo. Talvez por ter sido a primeira ilha que visitei nesta viagem, talvez por as condições meteorológicas estarem bastante favoráveis (algo muito importante e volátil dos Açores), a verdade é que achei que a Terceira tem uma beleza muito única. Duvidam? Confiram a viagem à Terceira abaixo.

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Angra do Heroísmo, capital insular

Aterrámos em Angra do Heroísmo num verdadeiro clima tropical de fim de agosto. Os níveis de humidade batiam os meus recordes pessoais e ao entardecer ainda estava um bafo infernal. Custava respirar nesta estufa Atlântica e mal tínhamos começado esta viagem à Terceira.

Depois de uma noite muito suada, começámos por explorar o centro de Angra do Heroísmo, zona considerada Património Mundial da UNESCO, e com bastante história – resumida e aberta a visitas no Museu de Angra do Heroísmo.

De costas para a marina, encontrámos Vasco da Gama, uma das personalidades históricas que encontrou bom porto nesta ilha e aqui atracou durante algum tempo, no regresso da primeira viagem à Índia. Mas este não é um caso isolado: ao longo dos séculos muitas foram as figuras que por aqui encontraram refúgio, por uns dias, meses, ou mesmo anos.

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Ao chegarmos ao Jardim do Duque da Terceira, deparamo-nos com a homenagem a Almeida Garrett, que viveu por aqui na sua adolescência quando o continente se defendia das invasões napoleónicas. Mas é preciso subir o jardim que é considerado um dos mais belos dos Açores para encontrar o Alto da Memória e aquele que é o mais importante visitante da Terceira: D. Pedro IV.

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Não é por acaso que Angra do Heroísmo é considerada a capital insular de Portugal. Por duas vezes, a cidade foi o centro de decisão do reino de Portugal. A primeira, no curto governo do Pior do Crato (entre a morte do cardeal D. Henrique e o início da dinastia filipina). A segunda, de forma mais oficial, quando D. Pedro IV instalou aqui a Junta Provisória (1828) e nomeou a cidade capital do reino em 1830. Foi também na Terceira que D. Pedro IV organizou o desembarque do Mindelo, uma operação militar que foi bastante importante para os liberais e que viria a ditar a derrota dos absolutistas liderados por D. Miguel.

Do Alto da Memória consegue ter-se uma visão sobre toda a cidade e os seus marcos: o Forte de São Sebastião, a Fortaleza de São São Batista e, claro, a Reserva Natural do Monte Brasil.

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Descemos e atravessamos a cidade para subir ao antigo vulcão extinto que leva o nome de país lusófono. Somos recebidos por veados curiosos que cercam as áreas de merenda em busca de lanches perdidos. Há famílias alargadas que se reunem, bolas de futebol, cheiro a churrasco e risos altos. Ao terminar o dia começamos a entrar na natureza insular.

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Perder-nos na natureza tropical atlântica

Digerida a fatia histórica da ilha, é tempo de nos perdermos no verde tropical. A primeira paragem é no trilho de Agualva, um percurso de 30 minutos que nos leva até a uma cascata. Começa a chover impiedosamente mas nem isso me impede de dar um mergulho. A humidade entra-me por todos os poros.

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Já com as nuvens a quererem desfazer-se, iniciamos a subida à Serra do Cume. Pelo caminho, o trânsito está condicionado: à nossa frente segue uma manada de vacas a subir a montanha em busca de erva fresca.

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Lá de cima, do miradouro, vemos a terra esquartejada em campos de cultivo e diferentes tons de verde: tantos quanto a vista consegue distinguir. E, ao fundo, a água, sempre a água, a limitar – ou a estender – o nosso horizonte.

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Descemos a serra por uma estrada que nos continua a inundar de verde. As curvas e contracurvas de asfalto são a única coisa que corta o tom até chegarmos ao Algar do Carvão, localizado na Caldeira Guilherme Moniz.

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A cavidade causada por uma explosão de lava tem cerca de 100 metros de profundidade, e pode ser descida por uns degraus feitos à medida humana. A natureza já reclamou as paredes de basalto e sentimos que estamos a descer um imenso poço verde, coberto de sebes e musgo. Na base encontramos estalactites de calcário e uma lagoa subterrânea de águas cristalinas.

Mais informação sobre horários e os bilhetes do Algar do Carvão aqui.

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De molho na viagem à Terceira

Ao terceiro dia as temperaturas teimam em não descer e é tempo de nos pormos de molho. Passando pelo Porto Judeu, paramos no Miradouro da Cruz do Canário pela Baía do Refugo.

Mais à frente, fazemos uma pausa mais demorada nas piscinas de Porto Martins e surpreendo-me. Eu sabia que os Açores não eram terra de extensos areais, mas desconhecia que isso era amplamente compensado por piscinas naturais cravadas na pedra a cada dezena de quilómetros.

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As piscinas de Porto Martins são das mais conhecidas e seguras, mas de longe as únicas. Dando a volta à ilha, viria a encontrar mais, como a mais remota zona balnear das Escaleiras – onde havia mais caravela-portuguesa que humanos – e a urbana piscina de São Mateus da Calheta, mesmo à beira da estrada.

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As minhas piscinas preferidas acabaram por ser as dos Biscoitos. Cortamos a serra e as nuvens para lá chegar, mas somos recebidos do outro lado da ilha com sol e umas águas mais selvagens. Aqui, o Atlântico é bravo e ameaça a sua força contra as rochas, mas as águas são temperadas, há pequenos peixes por todo o lado e as cavidades nas rochas convidam ao mergulho.

Ganho medo ao mergulhar, mas um terceirence dá-me alento: nada a temer porque a maré só puxa depois da rocha mais além. Acabo por descobrir que tem 11 irmãos, mas é o único que ficou por cá. Todos rumaram à América, quer seja para o Canadá, quer seja para os Estados Unidos.

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Ao final do dia ainda vamos conhecer um dos únicos areais da ilha: a Praia da Vitória. Sossegada num dia de semana e neste ano atípico, há pouco mais de uma dezena de pessoas na praia. Para a vermos em toda a sua dimensão subimos ao Miradouro do Facho.

Fora do radar terceirence

No último dia da viagem à Terceira subimos à Serra de Santa Bárbara, o ponto mais alto da ilha, com vista para o Pico e para S. Jorge. E, também, o mais nublado, onde é raro ver o céu limpo. Embrenhamo-nos no verde para chegar lá acima e voltamos ao interior selvagem, mas com pouca sorte. Lá em cima, nevoeiro cerrado.

Descemos para um lanche na Lagoa das Patas, outro dos locais preferidos dos terceirences para um passeio de domingo. Mais churrasco e toalhas estendidas no chão num cenário digno do Senhor dos Anéis.

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Para quem tiver tempo, por aqui há também as Furnas de Enxofre, a Gruta do Natal e a Lagoinha.

Onde ficar na Terceira – Alojamento

Nesta viagem à Terceira preferi alojar-me em Angra do Heroísmo, que fica numa posição central na ilha e tem uma boa oferta de restaurantes e comércio local – à exceção de domingo, quando a maioria dos estabelecimentos estão encerrados.

O local que escolhi foi a Hospedaria Isaias, um alojamento modesto junto à marina, gerido pelo simpático e prestável sr. Isaias. Os quartos são simples e não existe pequeno-almoço, mas tivemos acesso a uma pequena cozinha onde podíamos cozinhar as nossas refeições e armazenar a nossa comida. Os quartos duplos na Hospedaria Isaias custam a partir de 30 euros.

Para conhecer outros alojamentos am Angra do Heroísmo, cliquem aqui.

Onde comer na Terceira – Restaurantes

Restaurante A Tasca das Tias – Angra do Heroísmo

Localizado no centro de Angra do Heroísmo, a Tasca das Tias mistura o melhor da gastronomia local com um toque de cosmopolitismo. De tasca, só o nome. As especialidades incluem a abrótea frita e atum grelhado, e valem muito a pena.

O preço médio da refeição por pessoa ronda os 18 euros. Existe um espaço interior e um espaço exterior mais pequeno. Convém reservar através do número 295 628 062. O restaurante funciona todos os dias, para almoços e jantares. Fica localizado na Rua de São João, 113.

Pastelaria Forno – Angra do Heroísmo

Metade dos meus pequenos-almoços foram tomados na Pastelaria O Forno. Com fabrico próprio, o melhor da doçaria terceirence encontra-se aqui. O ex libris são os bolos D. Amélia, criados aquando da visita da rainha à ilha. A pastelaria está aberta das 8h00 às 19h00 de segunda-feira a sábado. Fica localizada na Rua de São João, 53.

Quinta dos Açores – Angra do Heroísmo

À saída de Angra do Heroísmo encontra-se a fábrica da Quinta dos Açores. Com uma das melhores vistas sobre Angra do Heroísmo e o Monte Brasil, este local tem um pequeno restaurante e uma afamada gelataria. Há também uma pequena loja de artesanato e charcutaria no interior, onde se pode fazer a prova de vários queijos e levar o preferido para casa.

A Quinta dos Açores fica no Pico Redondo, 149, sendo que o restaurante funciona das 10h às 22h, todos os dias. Não é necessário qualquer tipo de reserva.

Adega de São Mateus – São Mateus da Calheta

As melhores lapas que já provei foram na Adega de São Mateus. A pequena adega com ar de tasca serve o melhor peixe e marisco da ilha e está frequentemente lotado. Localizada numa zona piscatória, o ambiente é bastante familiar e informal. Além das lapas, há boca negra, filetes de abrótea e alcatra: tudo especialidades da ilha.

O preço médio da refeição por pessoa ronda os 18 euros. Existe apenas um espaço interior, que não é de grande dimensão nem arejado. Convém reservar através do número 295 642 345. O restaurante funciona segunda, terça, quarta e sexta aos almoços e jantares. Domingo e quinta funciona apenas ao jantar. Encerra ao sábado.

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Transportes na Terceira

Para chegar e partir da Terceira

  • Numa viagem à Terceira, a opção aérea é a mais comum. A TAP, a SATA e a Ryanair operam voos diretos para a ilha a partir de Lisboa e Porto. A TAP e a SATA asseguram também ligações diretas entre a Terceira e São Miguel. O melhor será consultar a Skyscanner para verificar os horários e preços para as datas da viagem. Grande parte das viagens que marco é através deste agregador.
  • A SATA disponibiliza também voos inter-ilhas, da Terceira para as restantes ilhas. Consultem aqui os horários dos voos.
  • A opção marítima é também muito comum nas deslocações inter-ilhas. A Atlanticoline possui ferrys regulares da Terceira para o Pico, São Jorge, Graciosa e Faial (ilhas do Grupo Central). Eu optei por me deslocar de barco entre estas ilhas e recomendo: além de ser uma opção mais sustentável, permite conhecer o arquipélago de uma nova forma: por si só, é uma experiência!
  • Durante o verão existem também ferrys da Terceira para as ilhas do grupo Oriental (São Miguel e Santa Maria) e Ocidental (Flores e Corvo) através de viagens mais longas. Em 2020 este serviço foi suspenso devido à pandemia de covid-19, mas prevê-se que seja retomado em 2021.

Dentro da Terceira

  • Dentro da Terceira, a opção mais comum e cómoda é o aluguer de carro. A RentalCars é sempre uma opção segura, mas eu apercebi-me que pode ser muito mais barato alugar viatura na chegada à ilha, caso tenham o contacto certo. No meu caso, a solução foi o senhor Isaias que disponibilizou o serviço.
  • Caso não tenham a possibilidade de alugar carro, existe um serviço de transporte público de autocarros de Angra do Heroísmo para os principais pontos turísticos: Porto Judeu, Praia da Vitória, Biscoitos e São Mateus. Os horários podem ser consultados aqui, tal como os percursos completos. O valor do bilhete varia consoante a distância percorrida, de menos de 1 euro a cerca de 4 euros (para o percurso mais longo, de Angra aos Biscoitos).
  • Ainda são pouco utilizadas, mas cada vez se vêem mais bicicletas nos Açores. A Terceira é das ilhas com menos declives e, por isso, pode ser uma boa opção, principalmente para conhecer as zonas costeiras. Vejam algumas opções para alugueres de bicicletas e para tours de bicicleta.

Durante a atual situação de pandemia por covid-19, os passageiros que desembarquem na Região Autónoma dos Açores terão de cumprir procedimentos adicionais, que estão explicados em DestinoSeguro.gov.pt e que são continuamente atualizados.

Atualmente, para viajar para os Açores é necessário preencher um questionário e realizar dois testes à covid-19, que são gratuitos para os passageiros. O primeiro teste deve ser marcado após a aquisição do bilhete de avião e realizado até 72 horas antes do embarque. O segundo teste é realizado, já nos Açores, sete dias depois do primeiro teste.

Parece complexo, mas o processo foi bastante simples e rápido, já que as marcações são online e não existe fila de espera na realização ao teste. Aliás, quando realizei o teste na Terceira nem tive de sair do carro, uma vez que é drive-through.

Ajudei-vos a planear a vossa próxima viagem aos Açores com esta viagem à Terceira? Se gostaram do que leram e vos consegui dar algumas dicas, sigam-me no Facebook e Instagram. Têm outras dicas? Deixem nos comentários.

Consultem também todos os artigos sobre os Açores.

Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

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