Às vezes descobrimos destinos por acaso. Vamos lá parar não sabemos bem porquê. Nalguns casos, é pura intuição. Lemos um parágrafo na internet, vemos uma fotografia e, sem sabermos muito bem a razão, sabemos que queremos lá ir parar. Assim foi comigo quando decidi ir ao Delta no Danúbio, na Roménia. Já tinha marcado o voo para este país, tinha pesquisado algumas coisas sobre Bucareste e sobre a Transilvânia, mas quando li sobre o Delta do Danúbio, alterei todo o meu roteiro de viagem na Roménia para conseguir estar 3 dias nesta região.

Delta do Danubio

A Chegada ao Delta do Danúbio

Ainda nem tínhamos saído de Bucareste, e já nos estávamos a aventurar. Os 300 quilómetros de estrada que separam a capital romena de Tulcea podem ser percorridos facilmente em viatura própria, mas os transportes públicos do país são mais complicados e requerem uma boa dose de planeamento. Com bilhetes adquiridos de antemão, começámos a nossa jornada de autocarro no aeroporto de Bucareste (podem adquirir bilhetes na Kirvad ou no agregador Autogari – são ambos de confiança) e rumámos a este. À medida que nos afastávamos da capital, o solo tornava-se mais árido, a estrada mais estreita e o clima cada vez mais seco.

A meio do dia, chegámos finalmente a Tulcea, uma cidade com pouco mais de 70.000 habitantes. O ponto de entrada para o Delta do Danúbio é a capital da região do mesmo nome e a maior cidade num raio de quase 100 quilómetros. Esta região romena apresenta a menor densidade populacional do país (23 habitantes por km), muito por causa da população rural dispersa no Delta do Danúbio, cujas águas ocupam um terço do território. Ainda não tínhamos colocado a vista em cima do segundo rio mais longo da Europa, mas já sentíamos o isolamento.

Em Tulcea dirigimo-nos a um pequeno porto nos arredores da cidade onde nos esperava uma lancha da Discover Danube Delta. Começavam agora quatro dias no Delta do Danúbio, uma região única na Europa, lar para mais de 320 espécies de aves, entre os quais pelicanos, cisnes, gansos e garças. Ao longo de 4.000km2 , o rio cria dezenas de ilhas onde existem quase 30 aldeias alcançáveis apenas por água.

roteiro na roménia 9 dias

Depois de duas horas à velocidade máxima e dos primeiros avistamentos da fauna e flora local, chegámos a uma dessas aldeias: Mila 23. Com apenas 400 habitantes, esta ilha sem veículos motorizados é composta por apenas duas ruas paralelas. Na rua principal, frente ao Danúbio, existem 3 supermercados. Olhamos em redor e quem nos recebe são os pelicanos, claramente em maior número e melhor adaptados à simbiose entre água e terra.

delta do danúbio

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A comuna de Crișan é constituída por 26% de população russa lipovana, e isso é particularmente visível em Mila 23. Emigrados da Rússia no século XVIII para fugir ao Czar Pedro I, estabeleceram-se nesta região e começaram a dedicar-se à pesca. As casas de madeira coloridas com varandas orientadas para o rio são pitorescas, especialmente as azuis que cumprem a tradição lipovana.

À noite, munida de repelente em doses industriais, subimos à casa comunitária da aldeia para assistir a um pequeno espectáculo de origem russa.

Delta do Danúbio Roménia

Sulina: a zona franca abandonada no tempo

No dia seguinte, acordamos cedo para começar a explorar em velocidade de cruzeiro o Delta do Danúbio. Navegamos entre os diferentes canais do rio e mergulhamos na natureza da região. Dividido em três braços (Sulina, Chilia e Gheorghe), parte desta região é considerada património da Humanidade pela UNESCO, apesar de estar em perigo ambiental: não apenas pela poluição dos cargueiros que vêm do Mar Negro ou do centro da Europa, mas também pelas descargas das indústrias de exploração mineira romenas. Contudo, os nossos guias conhecem bem os meandros do rio e levam-nos para zonas intactas onde a pegada humana ainda não deixou a sua marca.

delta do danúbio

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Pela hora de almoço chegamos a Sulina, a povoação mais a este da Roménia, com cerca de 3.500 habitantes. Antiga zona franca do leste europeu, a vila já chegou a ter mais do dobro da população. Até à II Guerra Mundial, por aqui entravam as mercadorias vindas do oriente, e esse encontro de nações ainda é visível na arquitetura local.

delta do danúbio

Pelas ruas da vila encontramos uma igreja ortodoxa grega lado a lado com uma russa, mas é no cemitério local que as diferenças são mais acentuadas. Na morte, cada um aos seus, e os credos estão separados: a zona judia é assinalada com a estrela de David, a turca pelos chapéus, a russa pela cruz dupla orientada a ocidente, a ortodoxa grega e romena com a cruz orientada a oriente, a católica romana, a protestante germânica e a anglicano britânica também com as suas cruzes distintas.

delta do danúbio

No estalar da II Guerra Mundial, as comunidades europeias fugiram e a maioria não regressou. Dada a sua importância estratégica, Sulina foi ocupada pelos nazis e, depois, pelos russos, o que também nos é transmitido por alguns dos edifícios sóbrios e despidos de raiz soviética. Sulina, ponto de passagem e encontro de nações, tornou-se um testemunho das diferentes nações e períodos históricos.

As ruas mostram também sinais do declínio da região e as marcas do tempo ao longo das décadas. Há inúmeros edifícios abandonados. Instala-se uma aura de final do mundo. Para além de Sulina, estende-se o vasto Mar Negro e o Médio Oriente. Chegámos ao final da Europa.

delta do danúbio

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Apesar dos enormes cargueiros industriais que por aqui passam, na ilha o transporte de predilecção é a bicicleta, como em toda a região. Há poucos veículos motorizados: as distâncias não justificam.

Mais recentemente, depois da queda do regime comunista, a zona começou pouco a pouco a ressurgir, principalmente devido ao turismo sazonal no verão. Existe uma renovada valorização da natureza e daqueles que vêm de fora. Sentamo-nos numa esplanada junto do rio e servem-nos um bom peixe. A hospitalidade reina aqui e os mais velhos têm gosto em pousar para uma fotografia.

delta do danúbio

Mar Negro: Encontro de Águas

No segundo dia no Delta do Danúbio continuamos a explorar as águas. Os lagos e canais guardam todo os tipo de aves que eu não sei nomear, mas que os guias e a internet me ajudam. Os pescoços longos das garças brancas e garças vermelhas são dos mais comuns. Os pelicanos e cisnes são também muito comuns e visíveis nos diferentes lagos. Vemos também pernilongos e andorinhas-do-mar. Mais raros são os colhereiros e os íbis.

delta do danúbio

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A caminho do canal de Gheorghe, passamos pela floresta de Letea, a reserva natural mais antiga na Roménia e onde a diversidade é ainda maior.

Pela tarde chegamos a um dos pontos onde o Danúbio desagua e se encontra com o Mar Negro. É altura para descansar durante algumas horas e mergulhar pela primeira vez nestas águas, em jeito de despedida desta região. Chegámos ao fim da Europa, podemos regressar.

delta do danúbio

Delta do Danúbio – Como planear?

Dado o isolamento da região, é praticamente impossível visitar o Delta do Danúbio sem o apoio de uma tour. É necessário um barco para nos movimentarmos de povoação em povoação e também um guia experiente para não nos perdermos nos inúmeros canais do rio.

Eu fiz a tour com a Discover Danube Delta, que recomendo bastante. Proporcionaram-nos uma experiência bastante local, até porque nós éramos os únicos estrangeiros na viagem. Além de serem guias experientes da fauna e flora, sabiam bastante da história da região e ainda nos proporcionaram boas experiências gastronómicas. Ficámos num alojamento local em Mila 23 e a matriarca da família deu-nos a provar polenta, peixe frito e uma pasta de alho que ainda hoje me deixa a salivar. Para outras opções de alojamento, vejam em Sulina, onde há alguma oferta.

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Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

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