Nem todas as fronteiras são desadequadas daquilo que elas prenunciam: um corte.

Muitas fronteiras parecem delimitar apenas certas disposições políticas e culturais: o limite marcado por uma guerra, a separação das nações por comum acordo, os orgulhos exagerados por neurose coletiva.

A fronteira que separa a China do Vietname, embora sem grandes condicionalismos impostos pela Natureza, não é como a fronteira EUA-Canadá, Portugal-Espanha ou Noruega-Suécia. Pelo menos do ponto de vista do viajante, é o símbolo de uma rutura.

A China, para uma nova sociologia em viagem

Cidades futurísticas por baixo de nuvens de fumo, pessoas de máscara no rosto alinhavadas à espera do autocarro, Baidu em vez de Google, WeChat em vez de Whatsapp, trabalhadores exaustos em fábricas na produção dos nossos objetos, um regime de um só partido e de um só líder.


A China, a enorme potência da Ásia, não se vende tão bem em cartazes turísticos. Talvez seja o efeito colateral de todas estas imagens.

Podiam ter sido até algumas destas generalizações a concretizarem-se na minha experiência. No entanto, para mim, na condição em que me encontrava – a de explorador de destinos – a rutura de ter entrado na China foi, sobretudo, a sensação de um modo diferente de ser viajante.

Antes de passar a fronteira, tinha estado dois meses e meio em viagem pelo Sudoeste Asiático. Na China, ainda iria ficar quase um mês. E eu já sentia que o meu périplo pelo extremo Oriente iria dividir-se em duas fases: o antes e o depois da China.

Os países tropicais do Sudoeste Asiático – como a Tailândia, a Indonésia, ou o Laos – têm o potencial de oferecer aos Ocidentais um reduto de realização das suas expectativas positivas. Aí se legitima o verdadeiro backpacker em modo tourist-cool-meditation-cheap-meals-flip-flops-wanderer, por meio de passaportes musculosos, de taxas de conversão perfeitas, de tons de pele certos, agradecidos à Providência.

A China, pelo contrário, subtraiu-me de toda a minha amazingness mochileira.

Hekou, ou como voltar a ser normal

Foi numa tarde de novembro, depois de quatro dias à espera do visto em Hanói, e de mais três dias de viagem pelo norte do Vietname, que passei a fronteira em Lào Cai e cheguei a Hekou.

O primeiro sinal de rutura foi o saber-me na China. Bastava-me, pois, essa sensação de me ver dentro daquela nova jurisdição. “Estou mesmo na China”, dizia eu a mim próprio assim que saía do posto fronteiriço de Hekou e avançava lentamente por uma das ruas principais, “sim, aqueles carateres estranhos nas fachadas dos edifícios assim o comprovam, estou na China”.

Procurava um lugar para comer e uma pensão para passar a noite. Até esse dia, o verbo procurar era quase sinónimo de receber. Quantas vezes não fui invadido indesejadamente em quase todas as estações onde cheguei nos países mais a sul por inúmeras ofertas: “quarto para uma noite: 10 dólares”, “quarto?”, “hotel?”, “taxi”, tuk-tuk”.

Ali em Hekou, pelo contrário, senti-me como que empurrado para uma outra dimensão. Os taxistas acenaram apenas à distância. Uma rua movimentada estendia-se à minha frente por onde vários letreiros me mostravam anúncios que eu não podia perceber. Nenhum outro europeu de mochila às costas me perguntava para onde eu ia.

Onde está aquela sensação de a cada cantinho ser acolhido como um deus de um mundo distante? Onde estão as placas indicando o hostel mais próximo?

Comer e dormir: dois gestos reaprendidos

Três da tarde. Tinha acabado de chegar e Hekou já me obrigava ao cumprimento de duas tarefas corriqueiras: encontrar um restaurante e um lugar onde dormir.

São estas tarefas que tornam as viagens depois de várias semanas — pelo menos as viagens grandes e improvisadas — hábitos e repetições interrompidas por espantos.

Numa das ruas de Hekou, as pernas obedeciam a movimentos lentos. Talvez por causa do calor que fazia apesar de novembro. Talvez por causa da sensação de me saber na China e de querer coordenar os membros inferiores com os olhos, atentos às maravilhas banais daquela cidade fronteiriça.

Mulheres de saia subida aproximaram-se de repente de mim. Uma delas puxou-me pelo braço. Soltei-me enquanto dizia: “Food, where can I eat?”. Viraram o rosto e voltaram para dentro de um edifício.

Caminhei ao longo da rua e voltei a repetir a vários transeuntes a palavra “food”. O som dessa palavra parecia, no entanto, tratar-se do anúncio de uma maldição. Afastavam-se de mim. Abanavam a cabeça.

Então decidi-me pela mão. Aproximei-me de uma mulher a comuniquei a palavra “food” sem som, movendo os dedos à frente dos lábios.

Minutos depois encontrava-me num pequeno restaurante onde repeti o mesmo método para pedir a comida: arroz frito com ovo e legumes.

E minutos mais tarde, o mesmo procedimento serviu para encontrar um lugar onde dormir: uma pensão cujas paredes não eram pintadas provavelmente desde os tempos de Mao Zedong e onde na mesa de cabeceira do quarto repousavam dois preservativos.

Assim começava a China, a minha China.

No dia seguinte de manhã estaria dentro de um comboio a caminho de Kunming, a maior cidade do estado de Yunnan.

A China estendia-se à minha frente e não me restava mais nada senão aproximar-me dela, afastando-me cada vez mais da fronteira.

João Guilhoto

As raízes são em Lamego, mas há muito que as deixou para trás. Aos 17 anos mudou-se para Lisboa e aos 24 para Frankfurt. Aos 28 deixou tudo e rumou à Ásia. Mas voltou. Escritor publicado no Brasil, tem também uma grande paixão pelas viagens e pela fotografia. Podem conhecer o site pessoal dele aqui.

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