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Leve, levam-me

são tomé voluntariado

Foram nove meses loucos no primeiro ano do Mestrado de Gestão da Universidade Nova. Quando em Maio de 2010 recebi aquele telefonema que me confirmou que iria 2 meses para São Tomé, nem quis acreditar…

Na verdade, a princípio, custou-me mesmo a crer: eu não era a voluntária mais assídua da WACT e existiam no grupo pessoas bem mais dedicadas do que eu, admito. Para ser franca, nem tinha ainda colocado na cabeça que poderia passar aquele Verão de 2010 numa roça perdida no meio de São Tomé. Tinha a certeza que não ia ser uma das escolhidas e a hipótese da viagem estava bem longe da minha realidade.

são tomé voluntariado

Apesar de inesperado, recebi a chamada e aceitei o desafio. Voluntariado em São Tomé. Sempre quis conhecer África em regime de voluntariado e estas seriam as minhas últimas férias grandes. Admito, não foi um processo sem hesitações e dúvidas quase existenciais. Acho que a maioria das pessoas fica de pé atrás quando sai pela primeira vez da Europa e, ainda por cima, eu ía para um país em desenvolvimento e durante algum tempo…

Desde a consulta do viajante em que nos põem a ver um vídeo sobre as doenças de África (não deixem que isso vos mexa com a cabeça – oiçam, tomem as devidas precauções e sigam em frente), até aos preparativos para 2 meses sem as facilidades do mundo ocidental: tudo me deixava com um nervoso miudinho. Uso limitado do telemóvel, ausência de internet (estávamos em 2010, em 6 anos as coisas já evoluíram bastante) ou água potável, alimentação condicionada e quartos partilhados durante a estadia eram algumas das coisas que nos esperavam. E que me tive de consciencializar. Em pouco tempo.

são tomé voluntariado

Mas na última sexta-feira de Junho lá estava eu no Aeroporto da Portela para apanhar o voo para São Tomé. E foi uma das melhores decisões que já tomei – os receios e porquês tornaram-se no verão mais inesquecível da minha vida.

Ficámos em Guadalupe e as roças de Agostinho Neto e Canavial foram os nossos focos de atuação. Penámos durante dois meses: eu, alocada à área de Economia, dei um curso de Gestão orientado para pequenos comerciantes e prestei consultoria aos pequenos negócios da zona.

5 sao tome voluntariado

Palmilhei quilómetros a pé de segunda a sábado para conhecer a realidade da ilha de São Tomé e apoiar naquilo que era necessário: desde mostrar como se preenche uma folha de contabilidade e ajudar a calcular os custos de produção para calcular a venda de produtos, a apoiar a remodelar uma biblioteca para as crianças e a prepará-las para os exames nacionais.

Um pôr-do-sol assim, só em África. Novo post lá no blog, link na bio. #contramapa #saotome #voluntariado

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Claro que tudo ao ritmo africano, ou não fosse o lema de São Tomé e Príncipe “Leve Leve”. As ilhas têm o seu próprio relógio onde as horas não valem o mesmo, e os horários não se aplicam aqui …

Entre banhos na cascata e no rio, idas à praia e à cidade ao domingo, pores-do-sol no telhado da casa e serões de cerveja nacional, houve espaço para muitos momentos que me marcaram e tenho a certeza que São Tomé teve mais impacto em mim do que eu em São Tomé.

são tomé voluntariado

Sejamos honestos, o voluntariado de curta duração em países de terceiro mundo marca-nos muito mais a nós, mesmo que que nos empenhemos com toda a nossa energia e disponibilidade. Em dois meses não podemos mudar o mundo. Mas podemos mudar o nosso mundo. Queremos fazer voluntariado, viajamos, queremos mudar os outros, mas quem muda somos nós.

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O Into the Wild do Eddie Vedder ganhou um novo sentido para mim, mas inevitavelmente tive de voltar à Society. Guardo as melhores recordações da leveza e otimismo são-tomense.

… Das crianças de pé descalço que cuidam umas das outras e que passam o dia na rua a encontrarem formas de se entreterem. E para isso basta um pau que empurre uma lata velha para criarem um “hóquei caseiro”.

… Das refeições de calulu, banana frita e peixe andala, cuja probabilidade de nos deixarem com dores de barriga eram demasiado elevadas.

… De tomar banho no rio com um sabonete que serve também de champô, e estar rodeada de crianças que se maravilham com a nossa pele branca e com o facto de eu precisar de óculos para ver.

… De, a caminho de casa, parar junto a uma árvore e trazer um mamão para sobremesa.

… De chupar sementes de cacau a caminho do Canavial e tirar bichôs dos pés.

… De alugar um jipe ao domingo, o único dia de folga, e percorrer a ilha até furar um pneu. E de quase ser obrigada a dormir no jipe por causa de uma chuva tropical, mas ser salva pelo João da Roça dos Tachos.

… De chegar à Jalé e encontrar o paraíso na terra.

… Sim, e de lavar a roupa ao domingo com sabão azul e branco no tanque. De acordar às 6h30 para cumprir a tarefa semanal de ir comprar o pão do dia ou encher o tanque de água e colocar as gotinhas de lixívia para desinfectar.

Sim, saudades disso tudo. E porquê?

Society, you’re a crazy breed.

(Texto da minha autoria publicado inicialmente para o site Para Onde?, sobre o qual podem ler aqui).

Gostaram da publicação? Leiam o Roteiro de 7 dias em São Tomé. Podem acompanhar o Contramapa no Facebook, Instagram e Twitter. Leiam também São Tomé, ilha pedida no Equador.

Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

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CONTRAMAPA

6 comentários
  1. Catarina
    Catarina says:

    Deve ter sido uma experiência incrível, daquelas que nos enchem a alma e nos deixam com um sorriso na cara, mesmo depois de se terem passado décadas. Eu fui 6 semanas para a Rússia pela AIESEC, mas acredito que a tua experiência tenha sido completamente diferente da minha. Gostava de saber mais sobre esse tempo passado em São Tomé e Príncipe 🙂

    Responder

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