O último dia em Nova Iorque foi longo e cheio de histórias da cidade para contar… Passámos o início do dia em Manhattan, e ao fim da manhã rumámos a Brooklyn, passando a Williamsburg Bridge.

Em Manhattan, já não nos faltava conhecer tudo – e já estou a ser muito otimista – mas existiam dois bairros que faltavam e que eu tinha muita curiosidade em conhecer: East Village e Lower East Side. Durante a manhã do último dia, ficámos a saber um bocadinho mais acerca do bairro e de como se tornou uma zona tão hip para viver, com apartamentos que hoje custam milhões de dólares. Passámos até por uma igreja que, à falta de fiéis, foi vendida e transformada num condo. Coisita para custa meia dúzia de milhões de euros. Pelo menos.

metro nova iorque

Para terem uma ideia do emburguesamento do bairro, o mítico bar da East Village, o CBGB, que nos anos 70 organizava concertos de Ramones, Talking Heads, Patti Smith, Blondie, entre outros, foi transformado numa loja do designer de luxo do John Varvatos. Numa tentativa de preservar o espaço, o designer inspirou-se no rock’n’roll e apresenta, junto à sua roupa de luxo, artigos vintage relacionados com a música. O próprio evento de abertura da loja foi um concerto que passou na VH1 e que contou com Rage Against the Machine e Guns’n’Roses, mas, como devem imaginar, não é bem o mesmo espírito dos anos 70…

Mesmo ao pé do ex-CBGB, mas já mais a sul, no Lower East Side parámos na Russ & Daughters, uma loja de petiscos judaicos fundada por um imigrante polaco em 1914. O negócio começou com a simples venda ambulante de cogumelos frescos, mas hoje já se encontra na quarta geração e, além da loja, a família já abriu um restaurante e está a preparar-se para abrir um museu.

Russ & Daughters appetizer

E o que tem de especial a Russ & Daughters? Iguarias judaicas, como rugelach, um pastel de massa quebrada com pinhão, passas e canela, e bagel and lox (bagels com cream cheese e salmão fumado). Sim, porque as bagels têm origem na comunidade judaica polaca. E aqui eles têm tipos de cream cheese e bagels para todos os gostos! A loja está aberta de segunda a sexta até às 20h, sábado até às 19h e domingo até às 17h30 e vale a pena uma visita.
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Mesmo ao lado da Russ & Daughters, há a Katz’s Delicatessen. Talvez o nome não vos diga nada, mas este é um restaurante histórico fundado em 1888, também de influência judaica. E se tiverem visto o filme “When Harry Met Sally…”, foi aqui que a Meg Ryan fingiu um mega orgasmo.

Se passarem por aqui para um petisco, não deixem de olhar para o irónico edifício ao fundo da rua, o Red Square. É fácil de reconhecer: de tijolo vermelho, com uma estátua do Lenin no topo, e com um relógio que nunca tem as horas certas, até porque tem os números trocados… OK, talvez os arquitectos tinham orientações políticas de esquerda, mas onde está a ironia? Bem, a ironia está no simples facto de o edifício ser um moderno complexo de apartamentos de luxo. Fundado em 1989, é um marco do início do emburguesamento do Lower East Side.

Red Square Lower East Side

Passámos também pela antiga residência da Lady Gaga, depois de ela ter desistido na NYU (New York University) no final do primeiro ano de faculdade. Ela vivia na Stanton Street, perto dos bares da moda, e foi neste apartamento que ela escreveu os seus primeiros hits, quando à noite era uma go-go dancer para pagar as contas.

Por falar, em go-go dancers, alguém por aqui vê Orange is the New Black? Passámos também pelo Lucky Cheng, o restaurante onde Laverne Cox, a transsexual Sophia, trabalhou como drag queen até ao final do primeiro ano da temporada da série.

Parece-vos uma zona toda hip, não é verdade?

Mas esta também já foi uma das zonas mais desfavorecidas da cidade e o Lower East Side Tenement Museum não deixa que esse passado seja esquecido. Quando os imigrantes começaram a chegar em massa a Nova Iorque no século XIX, famílias inteiras (e famílias à antiga, para cima de 4 crianças por casal) tinham apenas um quarto para viver. Esse quarto era o espaço para dormir, sala de estar, cozinha e, até, casa-de-banho.

O Tenement Museum mostra isso mesmo. O edifício foi construído em 1863 e chegou a albergar 7.000 imigrantes. Antes de ser aberto como museu, o edifício esteve abandonado por 53 anos sem que ninguém lá tivesse entrado, portanto foi possível preservar a forma como os imigrantes viviam nessa altura para que as gerações futuras não se pudessem esquecer.

(Não sei se a vocês também, mas a mim esta história fez-me lembrar da recente crise dos refugiados. Por isso é que é tão importante preservar a memória. Porque quando nos lembramos, temos compaixão. E repetimos menos erros do passado.)

Interessam-se por este tema? A única forma de visitar o museu é através das visitas guiadas que eles oferecem. Se estiverem interessados podem inscrever-se na visita atempadamente, de acordo com as vagas. Podem também consultar o trabalho do foto-jornalista Jacob Riis que em 1890 publicou How the Other Half Lives, que retrata as condições desumanas em que muitos imigrantes viviam no século XIX. O livro pode ser consultado aqui, mas abaixo estão duas fotos tiradas por ele (WikiCommons).

how the other half lives jacob riis

how the other half lives jacob riis

E bom, foi uma curta viagem à East Village e ao Lower East Side. Preparávamo-nos para atravessar a ponte de Williamsburg, que nos ligava a Brooklyn…

Vejam o Roteiro de 1 mês nos EUA e o o Dia #5 da US Roadtrip.

Chamo-me Diana.Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto.

6 replies
  1. zulrid
    zulrid says:

    Muito bom, é outra visão de NY. Geralmente só ficamos nos pontos mais famosos e não conhecemos essas curiosidades sobre a cidade. Irei nestes locais das próximas vezes.

    Responder

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